Recentemente assisti a 3ª temporada de Lúcifer, uma das mais longas e emocionantes da série, e trago aqui algumas percepções que me vieram à mente.
Na série Lúcifer, o inferno é retratado como um lugar sem correntes ou trancas. Nada aprisionava as pessoas ali, apenas a própria culpa e outros sentimentos negativos. O inferno não era propriamente um lugar mas uma experiência, altamente traumática, que se repetia num ciclo infinito.
O próprio Lúcifer, num episódio em que volta ao inferno, fica preso nesse ciclo de inferno, numa memória angustiante em que mata seu irmão, o anjo Uriel. A força da sua culpa era tão grande que ele não conseguia se libertar desse ciclo. Ele segue revivendo toda a dor relacionada ao que fez até ser resgatado.
Uma das personagens mais impactadas por essa ideia de inferno, foi a advogada Charlotte Richards. Em vida, ela defendia bandidos e garantia que muitos deles passassem impunes por seus crimes. Com isso, ganhava muito dinheiro e tinha uma vida de muito conforto. Até que morre e passa uma temporada no inferno (enquanto seu corpo era utilizado pela mãe de Lúcifer).
Charlotte teve a chance de voltar à vida e a lembrança do inferno que viveu a leva a querer mudar totalmente seu estilo de vida anterior. Num primeiro momento, é uma intenção forçada, que vai contra sua própria natureza, mas aos poucos ela consegue ir mudando seus hábitos.
Amenadiel, o anjo enviado por Deus para resgatar Lúcifer da Terra e levá-lo de volta ao inferno, falha na sua missão e com isso fica preso na Terra, vivendo entre os humanos, seres que ele considerava inferiores (apesar de não assumir isso em palavras). Em dado momento de sua jornada, ele perde seus poderes de anjo e passa a viver como um simples mortal, experiência que lhe foi assumida a muito contragosto e sofrimento. Ele acreditava estar sendo punido por Deus. Depois passou a pensar que estava sendo testado e tentava manter sua fé.
Amenadiel passa a viver como ser humano e interagir com outros humanos e dessa experiência vai tirando seus aprendizados. E chega a teoria de que ele mesmo foi quem criou sua experiência atual, pois ele mesmo não se achava digno de ser anjo.
O inferno se torna, nesse modo de pensar, uma experiência de expurgo, no sentido de se limpar de um sentimento de culpa, ódio, rejeição e afins. O inferno, assim como todo sofrimento vivido na Terra, não seria um castigo, mas uma experiência necessária para assimilar um aprendizado, para adquirir maior consciência.
Lúcifer (do latim, lux-ferus, "portador da luz") não veio trazer punição a humanidade, mas um caminho de luz pra fugir da escuridão da ignorância. Lúcifer nunca deixou de ser anjo, apesar de ele mesmo tentar negar isso. Assumiu um trabalho que poucos teriam força para conseguir, lidando com o lado mais sombrio da obra divina. E por isso ainda é mal julgado.
Temos o ditado "De boas intenções o inferno está cheio" e muitas vezes, o mal não é causado por aquele que tem intenção de fazê-lo, mas por aquele que tem a ilusão de estar fazendo o bem. O episódio em que aparece o ex-marido da Dr Linda retrata bem isso. Nesse episódio, o ex-marido tentava reatar a relação e salvá-la de um perigo que só existia na mente dele. E com isso, se perdeu na sua obsessão, causando o mal a outras pessoas inocentes e a si mesmo.
Seja ele real ou não, o inferno não passa de uma experiência criada por nós mesmos. Não há inferno pior que nossa própria consciência e dela ninguém pode nos salvar, exceto nós mesmos.




