domingo, 29 de agosto de 2021

Lucifer e o Inferno como Auto-Expurgo

Recentemente assisti a 3ª temporada de Lúcifer, uma das mais longas e emocionantes da série, e trago aqui algumas percepções que me vieram à mente.

Na série Lúcifer, o inferno é retratado como um lugar sem correntes ou trancas. Nada aprisionava as pessoas ali, apenas a própria culpa e outros sentimentos negativos. O inferno não era propriamente um lugar mas uma experiência, altamente traumática, que se repetia num ciclo infinito.

O próprio Lúcifer, num episódio em que volta ao inferno, fica preso nesse ciclo de inferno, numa memória angustiante em que mata seu irmão, o anjo Uriel. A força da sua culpa era tão grande que ele não conseguia se libertar desse ciclo. Ele segue revivendo toda a dor relacionada ao que fez até ser resgatado.


Uma das personagens mais impactadas por essa ideia de inferno, foi a advogada Charlotte Richards. Em vida, ela defendia bandidos e garantia que muitos deles passassem impunes por seus crimes. Com isso, ganhava muito dinheiro e tinha uma vida de muito conforto. Até que morre e passa uma temporada no inferno (enquanto seu corpo era utilizado pela mãe de Lúcifer).

Charlotte teve a chance de voltar à vida e a lembrança do inferno que viveu a leva a querer mudar totalmente seu estilo de vida anterior. Num primeiro momento, é uma intenção forçada, que vai contra sua própria natureza, mas aos poucos ela consegue ir mudando seus hábitos.

Amenadiel, o anjo enviado por Deus para resgatar Lúcifer da Terra e levá-lo de volta ao inferno, falha na sua missão e com isso fica preso na Terra, vivendo entre os humanos, seres que ele considerava inferiores (apesar de não assumir isso em palavras). Em dado momento de sua jornada, ele perde seus poderes de anjo e passa a viver como um simples mortal, experiência que lhe foi assumida a muito contragosto e sofrimento. Ele acreditava estar sendo punido por Deus. Depois passou a pensar que estava sendo testado e tentava manter sua fé.


Amenadiel passa a viver como ser humano e interagir com outros humanos e dessa experiência vai tirando seus aprendizados. E chega a teoria de que ele mesmo foi quem criou sua experiência atual, pois ele mesmo não se achava digno de ser anjo.

O inferno se torna, nesse modo de pensar, uma experiência de expurgo, no sentido de se limpar de um sentimento de culpa, ódio, rejeição e afins. O inferno, assim como todo sofrimento vivido na Terra, não seria um castigo, mas uma experiência necessária para assimilar um aprendizado, para adquirir maior consciência.

Lúcifer (do latim, lux-ferus, "portador da luz") não veio trazer punição a humanidade, mas um caminho de luz pra fugir da escuridão da ignorância. Lúcifer nunca deixou de ser anjo, apesar de ele mesmo tentar negar isso. Assumiu um trabalho que poucos teriam força para conseguir, lidando com o lado mais sombrio da obra divina. E por isso ainda é mal julgado.

Temos o ditado "De boas intenções o inferno está cheio" e muitas vezes, o mal não é causado por aquele que tem intenção de fazê-lo, mas por aquele que tem a ilusão de estar fazendo o bem. O episódio em que aparece o ex-marido da Dr Linda retrata bem isso. Nesse episódio, o ex-marido tentava reatar a relação e salvá-la de um perigo que só existia na mente dele. E com isso, se perdeu na sua obsessão, causando o mal a outras pessoas inocentes e a si mesmo.


Seja ele real ou não, o inferno não passa de uma experiência criada por nós mesmos. Não há inferno pior que nossa própria consciência e dela ninguém pode nos salvar, exceto nós mesmos.

domingo, 11 de julho de 2021

Desertos

Esse mundo é um deserto. Não há terreno fértil pra que algum bem floresça. Por isso é tão difícil encontrar bondade por aí. Não há espaço adequado pra que o amor se enraíze e cresça. Por isso é tão raro. Não encontramos amor no mundo, não importa onde se procure. Dificilmente se encontra em alguém, em outra pessoa.

Quem quiser viver o amor no mundo precisa trazê-lo de sua alma, cultivá-lo dentro de si. Talvez por isso, temos tanto desespero em procurar amor no outro.

Quem é capaz de olhar para a própria alma? Quem tem coragem de conhecer a si mesmo? Quem tem o empenho e cuidado para cultivar algo tão abstrato?

É tão mais fácil esperar que o mundo nos entregue tudo pronto. Chorar como uma criança esperando que alguém nos dê amor. Manipular aqueles que carregam a cruz da própria bondade e roubar-lhes o amor que tanto trabalho tiveram para criar.

A maioria de nós passa por esse planeta como um parasita. Recebemos amor, recebemos bondade, recebemos luz. E nada fazemos com isso. Apenas consumimos o que nos foi dado sem nenhuma responsabilidade. Apenas esperamos mais, como se o que temos não fosse o suficiente. Não queremos ter o trabalho de plantar, criar, cultivar, cuidar, regar, compartilhar...

Enquanto isso a semente de amor que trazemos em nossa alma apodrece. E apodrece da pior forma possível, escorrendo seu limo em nossa carne viva, criando sofrimento em cima de sofrimento.

Nossas raízes também apodreceram nesse caminho. Nossos pais, avós, bisavós não puderam nos dar o amor que precisávamos porque também se perderam nesse mundo desértico e amaldiçoado.

No fim, o que nos resta é aprender a transformar toda essa podridão em adubo e permitir que nossa semente interior nasça, da forma que puder nascer.

Aprender a abençoar nossas raízes em meio a tantas maldições, esse é o caminho de salvação das nossas almas perdidas. É um enorme desafio.



domingo, 4 de julho de 2021

Mensagem de desesperança

 Até quando serei esse sepulcro aberto dos meus próprios sonhos? 

Até quando terei que me afogar no mar de miséria e injustiça desse mundo? 

Até quando terei que manter esse corpo deprimente vivo enquanto minha alma apodrece em meus próprios defeitos?

Até quando terei que viver entre ratos e baratas que se atraem pela minha aura de podridão?

Até quando terei que sofrer pela minha própria crença de que assim o é necessário?

Até quando serei apenas mais uma alma sofredora em meio a esse sonoro coro de lamentações?

Num tempo em que tantos milhares morreram e ainda morrem de uma doença evitável, eu só me sinto cansada de viver. Eu queria ter uma mensagem de esperança pra mim mesma nesse momento de tantas desgraças no mundo. Mas há um momento que cansa se sentir privilegiada pelos nossos pequenos privilégios diários (como ter comida, ter uma cama pra dormir e ter um teto) por mais limitados que sejam. Nada me satisfaz, nada diminui a minha angústia.

Eu já caminhei tanto, me esforcei tanto, tentei tanto e parece que não cheguei a lugar algum. Saí de uma situação ruim pra outra minimamente menos ruim. Esforço desproporcional aos resultados.

Tanto estudei e o único conhecimento real que adquiri foi a consciência sobre a minha infinita miséria.

Qual significado dar pra tudo isso? Se eu fosse uma pessoa um pouco menos espiritualizada já teria desistido dessa vida, porque de uma análise material, nada disso faz sentido. Olho pra trás e vejo a vida de uma jovem esperançosa, tendo seus sonhos decepados, um a um, pela realidade. A foice de Saturno é cruel e inclemente.

Eu me sinto como Ana Terra (personagem da trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo), que a única coisa que a estimula a continuar na vida é "essa teimosia de viver".


Não tenho religião, não sigo crenças. Estudo todo tipo de coisa espiritual que me interesse e de vez em quando encontro algo que funciona pra mim. E tem sido das poucas coisas que me dão força nessa jornada, por mais que essa força pareça pouca. O autoconhecimento é uma lição eterna e difícil.

Tenho sido minha pior carrasca, mas também minha melhor professora. Muitos já me ajudaram e me ajudam, mas a única pessoa que posso realmente contar é comigo mesma.

Tenho essa esperança pueril de tentar aprender com as dificuldades. Mas parece que elas são tantas que eu não dou conta, a vontade falha. E há dias, como hoje, que eu não consigo fazer nada, sequer as obrigações básicas. E eu só fico imóvel com meus pensamentos, no escuro e no frio.

Mas acho que essa é a intenção do inverno, decepar as folhas e fortalecer as raízes. Levar embora o que é sublime e temporário e deixar somente nossa essência. Como na Calcinatio, em que o fogo decompõe tudo o que é volátil e mantém somente os elementos essenciais de um analito.

E depois do inverno, Persephone retorna do mundo dos mortos, traz a primavera e suas flores. Traz o renascimento.

domingo, 7 de março de 2021

Sensorium (Epica) e os desafios da vida

Estar consciente é um tormento.

Não dá pra ler as notícias e ter esperança no futuro. Não dá pra viver nesse cenário atual de pandemia e estar bem. É cansativo existir e resistir nessa situação.

Desde março do ano passado em casa, saindo só pra trabalho, mercado e resolver qualquer problema necessário, pensando coletivamente, tentando não matar e não morrer propagando vírus. Vivendo minha vida extremamente limitada, por estar consciente. Enquanto assisto várias pessoas por aí, seguindo como se nada estivesse acontecendo, vivendo felizes sua vidinha inconsciente. Sim, eu sei que há quem precisa sair pra trabalhar e se arriscar, mas sabemos que não chegamos numa situação tão crítica por isso.

Quase 1 ano depois e sigo vendo gente nas redes sociais defendendo o indefensável. Minha lista de bloqueados só aumenta, porque ter chegado até aqui sem ter aprendido nada, é caso que não tem mais salvação. Não me preocupo mais em debater, tentar convencer, porque informação tem de sobra por aí. Porém há quem prefira o lugar confortável da ilusão, da alucinação, da teoria de conspiração, da negação do problema. É mais fácil do que se preocupar em ser parte da solução e se esforçar pra melhorar.

É difícil aceitar que tanta gente foi tomada pelo ódio e segue feliz rumo à morte, arrastando quem puder pelo caminho. A voz do inconsciente coletivo é uma voz de raiva, que grita pela morte. Xinga quem pede por lockdown, vacinas, auxílio emergencial. Berra em caixa alta pedindo por um remédio milagroso que foi comprovado que não funciona. Ataca raivosamente um inimigo oculto que ele foi convencido que existe e que vai roubar os seus dados, sua liberdade e seu dinheiro.

Já li teorias de que muita gente iria ser varrida desse planeta, que o planeta estaria evoluindo espiritualmente. A evolução é um processo lento e, nesse caso, envolveria muitas mortes, de gente que não está disposta a evoluir. A morte nunca é um processo fácil, há muita dor pra quem vai e pra quem fica. A vida já não é uma experiência fácil nesse mundo de provas e expiações, lidar com a morte é mais difícil ainda.

Também vi gente dita espiritualista culpabilizando vítimas da doença, argumentando sobre uma suposta frequência vibracional do vírus. Acho impossível estar sempre bem e mantendo sempre esta tal boa vibração. Em um momento como esse, não existe ninguém imune. Nem vacina dá 100% de imunidade, ainda mais no Brasil, em que o vírus achou tanto campo fértil pra mutações. É quase uma guerra biológica que estamos vivendo.

Muita gente boa já morreu. Talvez almas que já cansaram de tanta luta e tanto sofrimento. Ou talvez tudo isso nem faça sentido e seja tudo uma grande piada cósmica. De fato, o sentido pra vida é a gente que inventa. Não temo pela morte física, porque acredito plenamente que a morte não é o fim. Só espero que no futuro tenhamos um planeta mais evoluído, nem que seja o mínimo, em que as pessoas possam ter alguma esperança. 

O pior nisso tudo é que, com tantas mortes, não há tempo pra luto. Tanta gente já se foi, tantos já perderam família, amigos, conhecidos. E as pessoas tem que seguir contra tantas adversidades. Nada melhorou desde o ano passado. Pelo contrário, só piora cada vez mais. Entendo quem está optando pela apatia. É mais fácil e prático. Também opto pela apatia, às vezes. Quando finalmente pudermos parar e viver adequadamente o luto, teremos uma carga emocional e psicológica muito pesada pra lidar.

Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de viver sem estar consciente disso.

Nosso futuro já foi escrito por nós mesmos, mas nós não captamos o sentido do nosso curso de vida programado. Nós apenas tememos o que está por vir e sentimos o cheiro da morte todos os dias.

Procurar pelas respostas que estão além tem sido um caminho de entendimento e aceitação pra mim. O objetivo da vida é fazer com que isso tenha significado.


Inspiração na letra de Sensorium - Epica: https://www.youtube.com/watch?v=jxWHrHC2Qe4


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A cruz e a espada

 

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.” Mateus 10:34
Essa é uma passagem um tanto polêmica da Bíblia, e um tanto incompreendida, quando se leva ao pé da letra.
No Tarot, as cartas de Espadas estão associadas às ideias, à ação, aos pensamentos, ao plano mental, coragem e conflito. As cartas de Espadas nos avisam de provas futuras, as quais teremos de enfrentar pois fazem parte do nosso desenvolvimento. E quem quiser evoluir, que lute!



O naipe de Espadas está ligado ao aspecto mental, de modo que, muitas das batalhas que teremos que enfrentar serão no plano mental, serão batalhas interiores.
No mundo mental, é fácil se perder em nossos próprios labirintos. Problemas pequenos ganham dimensões exageradas, ou, no oposto, negamos o problema porque não queremos enfrenta-lo.
“E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim.” Mateus 10:38
A cruz é sofrimento, símbolo deste mundo de provas e expiações em que vivemos. E quando viemos a este mundo, aprendemos a vê-lo como real. É necessário que assim o vejamos para viver as experiências da forma mais visceral. É um processo doloroso e precisa ser. Porém todo este processo é uma ilusão. O mundo é uma ilusão. Uma ilusão criada para nos trazer experiências, conhecimento, sabedoria. É um caminho que nos traz Luz, uma verdadeira iluminação. A ilusão é um mal necessário.
Neste mundo de sombras, é natural que nos identifiquemos com a sombra, mas é preciso olhar para a Luz. A sombra veio para nos mostrar o caminho por meio dos contrastes. Mas a sombra não é eterna, é uma ilusão. A sombra só é ausência de Luz.
O trabalho interno é necessário para que possamos transformar nossas dificuldades, e trazer Luz à toda dor. O pensamento (a espada) constrói nossa realidade. Viver na dificuldade traz crescimento. A luta é interna, mas o crescimento é real. Porque no fim, a espada veio a serviço da paz.

Lucifer e o Inferno como Auto-Expurgo

Recentemente assisti a 3ª temporada de Lúcifer, uma das mais longas e emocionantes da série, e trago aqui algumas percepções que me vieram à...