Estar consciente é um tormento.
Não dá pra ler as notícias e ter esperança no futuro. Não dá pra viver nesse cenário atual de pandemia e estar bem. É cansativo existir e resistir nessa situação.
Desde março do ano passado em casa, saindo só pra trabalho, mercado e resolver qualquer problema necessário, pensando coletivamente, tentando não matar e não morrer propagando vírus. Vivendo minha vida extremamente limitada, por estar consciente. Enquanto assisto várias pessoas por aí, seguindo como se nada estivesse acontecendo, vivendo felizes sua vidinha inconsciente. Sim, eu sei que há quem precisa sair pra trabalhar e se arriscar, mas sabemos que não chegamos numa situação tão crítica por isso.
Quase 1 ano depois e sigo vendo gente nas redes sociais defendendo o indefensável. Minha lista de bloqueados só aumenta, porque ter chegado até aqui sem ter aprendido nada, é caso que não tem mais salvação. Não me preocupo mais em debater, tentar convencer, porque informação tem de sobra por aí. Porém há quem prefira o lugar confortável da ilusão, da alucinação, da teoria de conspiração, da negação do problema. É mais fácil do que se preocupar em ser parte da solução e se esforçar pra melhorar.
É difícil aceitar que tanta gente foi tomada pelo ódio e segue feliz rumo à morte, arrastando quem puder pelo caminho. A voz do inconsciente coletivo é uma voz de raiva, que grita pela morte. Xinga quem pede por lockdown, vacinas, auxílio emergencial. Berra em caixa alta pedindo por um remédio milagroso que foi comprovado que não funciona. Ataca raivosamente um inimigo oculto que ele foi convencido que existe e que vai roubar os seus dados, sua liberdade e seu dinheiro.
Já li teorias de que muita gente iria ser varrida desse planeta, que o planeta estaria evoluindo espiritualmente. A evolução é um processo lento e, nesse caso, envolveria muitas mortes, de gente que não está disposta a evoluir. A morte nunca é um processo fácil, há muita dor pra quem vai e pra quem fica. A vida já não é uma experiência fácil nesse mundo de provas e expiações, lidar com a morte é mais difícil ainda.
Também vi gente dita espiritualista culpabilizando vítimas da doença, argumentando sobre uma suposta frequência vibracional do vírus. Acho impossível estar sempre bem e mantendo sempre esta tal boa vibração. Em um momento como esse, não existe ninguém imune. Nem vacina dá 100% de imunidade, ainda mais no Brasil, em que o vírus achou tanto campo fértil pra mutações. É quase uma guerra biológica que estamos vivendo.
Muita gente boa já morreu. Talvez almas que já cansaram de tanta luta e tanto sofrimento. Ou talvez tudo isso nem faça sentido e seja tudo uma grande piada cósmica. De fato, o sentido pra vida é a gente que inventa. Não temo pela morte física, porque acredito plenamente que a morte não é o fim. Só espero que no futuro tenhamos um planeta mais evoluído, nem que seja o mínimo, em que as pessoas possam ter alguma esperança.
O pior nisso tudo é que, com tantas mortes, não há tempo pra luto. Tanta gente já se foi, tantos já perderam família, amigos, conhecidos. E as pessoas tem que seguir contra tantas adversidades. Nada melhorou desde o ano passado. Pelo contrário, só piora cada vez mais. Entendo quem está optando pela apatia. É mais fácil e prático. Também opto pela apatia, às vezes. Quando finalmente pudermos parar e viver adequadamente o luto, teremos uma carga emocional e psicológica muito pesada pra lidar.
Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de viver sem estar consciente disso.
Nosso futuro já foi escrito por nós mesmos, mas nós não captamos o sentido do nosso curso de vida programado. Nós apenas tememos o que está por vir e sentimos o cheiro da morte todos os dias.
Procurar pelas respostas que estão além tem sido um caminho de entendimento e aceitação pra mim. O objetivo da vida é fazer com que isso tenha significado.
Inspiração na letra de Sensorium - Epica: https://www.youtube.com/watch?v=jxWHrHC2Qe4